quinta-feira, 4 de março de 2010

canção para tatiana



















a ciranda
a roda
anda vai
que tua dança
avança em mim
em rotação contínua
roda viva dessa maré/cidade
em liberdade canta
que o instante é pouco
e fosse inteira a vida
inda seria pouca

por tanto mar
marés que me revele
ou sendo ilha
tua flor da pele
me traz perfume
o mar em teu olhar
de tanta luz
me cega em noite clara

e a mansidão
que vem de tua fala
é como brisa
que eu gosto de escutar


arturgomes


O homem e sua hora
Mário Faustino

ROMANCE


Para as Festas da Agonia
Vi-te chegar, como havia
Sonhado já que chegasses:
Vinha teu vulto tão belo
Em teu cavalo amarelo,
Anjo meu, que, se me amasses

Em teu cavalo eu partira
Sem saudade, pena, ou ira;
Teu cavalo, que amarraras
Ao tronco de minha glória
E pastava-me a memória
Feno de ouro, gramas raras.

Era tão cálido o peito Angélico,
onde meu leito Me deixaste então fazer,
Que pude esquecer a cor
Dos olhos da Vida e a dor
Que o Sono vinha trazer.

Tão celeste foi a Festa,
Tão fino o Anjo, e a Besta
Onde montei tão serena,
Que posso, Damas, dizer-vos
E a vós, Senhores, tão servos
De outra Festa mais terrena —

Não morri de mala sorte,
Morri de amor pela Morte.

SINTO QUE O MÊS PRESENTE ME ASSASSINA


Sinto que o mês presente me assassina,
As aves atuais nasceram mudas
E o tempo na verdade tem domínio
sobre homens nus ao sul das luas curvas.

Sinto que o mês presente me assassina,
Corro despido atrás de um cristo preso,
Cavalheiro gentil que me abomina
E atrai-me ao despudor da luz esquerda
Ao beco de agonia onde me espreita
A morte espacial que me ilumina.

Sinto que o mês presente me assassina
E o temporal ladrão rouba-me as fêmeas
De apóstolos marujos que me arrastam
Ao longo da corrente onde blasfemas
Gaivotas provam peixes de milagre.

Sinto que o mês presente me assassina,
Há luto nas rosáceas desta aurora,
Há sinos de ironia em cada hora
(Na libra escorpiões pesam-me a sina)
Há panos de imprimir a dura face
À força de suor, de sangue e chaga.

Sinto que o mês presente me assassina,
Os derradeiros astros nascem tortos
E o tempo na verdade tem domínio
Sobre o morto que enterra os próprios mortos.

O tempo na verdade tem domínio,
Amen, amen vos digo, tem domínio
E ri do que desfere verbos, dardos
De falso eterno que retornam para
Assassinar-nos num mês assassino.


O SOM DESTA PAIXÃO ESGOTA A SEIVA


O som desta paixão esgota a seiva
Que ferve ao pé do torso; abole o gesto
De amor que suscitava torre e gruta,
Espada e chaga à luz do olhar blasfemo;
O som desta paixão expulsa a cor
Dos lábios da alegria e corta o passo
Ao gamo da aventura que fugia;

O som desta paixão desmente o verbo
Mais santo e mais preciso e enxuga a lágrima
Ao rosto suicida, anula o riso;
O som desta paixão detém o sol,
O som desta paixão apaga a lua.

O som desta paixão acende o fogo
Eterno que roubei, que te ilumina
A face zombeteira e me arruína.
. . . Juventude —
a jusante a maré entrega tudo —
maravilha do vento soprando sobre a maravilha
de estar vivo e capaz de sentir
maravilhas no vento —
amar a ilha, amar o vento, amar o sopro,
[ o rasto —maravilha de estar ensimesmado
(a maravilha: vivo!),
tragado pelo vento, assinala
donos pélagos do vento, recompos
tonos pósteros do tempo, assassinado
na pletora do vento —
maravilha de ser capaz,
maravilha de estar a posto,
maravilha de em paz sentir
maravilhas no vento,
encapelado vento —
mar à vista da ilha,
eternidade à vistado tempo —
o tempo: sempre o sopro
etéreo sobre os pagos, sobre as régias do vento,
do montuoso vento —
e a terna idade amarga —

juventude —
êxtase ao vivo, ergue-se o vento lívido,
vento salgado, paz de sentinela
maravilhada à vistade si mesma nas algas
do tumultuoso vento,
de seus restos na mágoado tumulário tempo,
de seu pranto nas águas do mar justo —
maravilha de estar assimilado
pelo vento repletoe pelo mar completo —

juventude —
a montante a maré apaga tudo. . .

Um comentário:

  1. é que quando balança o vento
    roda a saia da moça morena
    e ela vai
    e sai
    salão afora.

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