quinta-feira, 11 de novembro de 2010

MAYARA PETRUSO, ESPELHO DA SOCIEDADE BRASILEIRA

Memélia Moreira

Historiadores, sociólogos e psicanalistas já começaram a publicar suas análises sobre a escancarada demonstração de preconceito de uma jovem contra os nordestinos, quando foi noticiada a vitória de Dilma Roussef para a presidência da República. Li alguns textos que falam de Mayara Petruso, paulista, 21 anos. Ela é o exemplo acabado da intolerância brasileira, burilada pela total despolitização de um tipo de juventude que recebeu educação para enxergar apenas as redondezas do seu próprio umbigo.

Juventude que tem formação política de estrebarias típica dessas faculdades particulares que vicejam em produção industrial por todo o país. Uma juventude sem valores outros que não o fetiche pelas marcas da moda. Do soutien à sapatilha todas as peças devem ter o carimbo, a marca do dono. O produto final só poderia ser essa boçalidade perigosa que cresce feito cogumelos depois da chuva.

Por que, de repente, menos de seis horas depois uma postagem no Tweeter, em que incita os paulistas em particular, e o os brasileiros, em geral, a afogar nordestinos apelo bem do Brasil o mundo desabou sobre a cabeça e a vida de Mayara Petruso? Bom, antes de mais nada, porque ela mereceu. Pelo menos, por uma vez, ela deve ter aprendido uma lição. Discriminação é crime. Mas, será que aprendeu? Pessoalmente, não me permito o benefício da dúvida. Ela não aprendeu nada. E nem vai aprender. Sua capacidade de raciocínio foi bloqueada, logo ao nascer, pela própria sociedade em que vive.

E tenho fundas razões para acreditar que essa será mais uma história a ser esquecida. Ou alguém se lembra do racismo, mais que isso, da postura nazista de uns rapazes classe média de Brasília que incendiaram o corpo do índio Pataxó Galdino de Jesus em 1998, quando este dormia num ponto de ônibus? Quando a polícia perguntou o porquê da barbárie, responderam a gente não sabia que era índio. Pensamos que era um mendigo. Essa talvez tenha sido uma das mais perversas frases que já ouvi na vida.

E, repetimos o gesto. Só este ano foram assassinados, alguns queimados vivos, 30 moradores de rua em Maceió. Eles agora dormem em árvores para fugir dos bárbaros. Voltaram aos primórdios da evolução humana. Tal como os primatas que nos antecederam, dormem em árvores para sobreviver. Antes que eu me esqueça, não foram paulistas que mataram os moradores de rua em Maceió. Foram alagoanos. Maceió, capital de Alagoas, era Nordeste até eu sair do Brasil, há quase oito anos.

Esses exemplos são apenas para dizer que nossa sociedade, a sociedade brasileira, é racista, é intolerante, é violenta, é má, selvagem. Uma sociedade que é igual a qualquer outra à qual não hesitamos em apontar o dedo indicador qualifando-a de racista, como se esse adjetivo fosse de uso exclusivo dos povos mais ou menos brancos ou das raças puras .

Não, não apenas não somos esses seres cheios de candura e amor, alegres, que recebem a todos de braços abertos, que canta e baila, tintas pollyanas com as quais gostamos de nos pintar, como também estamos sempre prontos a escolher o primeiro bode expiatório que também carregue nossos crimes para levá-lo à guilhotina. E quando o espelho do nosso narcisismo reflete o monstro que somos nós, então, o quebramos. E nos sentimos aliviados por extirparmos aquele pequeno câncer. Acalentamos nossa consciência mas, então, a Hydra, e não Fênix, renasce. E novamente corremos ao espelho, e novamente nos enoja o reflexo de nós mesmos e...

Nossa reação também é seletiva. Temos preferências por alguns alvos. Os favoritos são os mais fracos. É aí que entra essa estúpida mulher de 21 anos chamada Mayara Pretuso que de tão idiota, deveria ser iniputável. Ela não foi a primeira, nem única a jorrar sua intolerância e preconceito nas páginas do Tweeter nos períodos pré e pós-eleitoral.

Sou assídua frequentadora do Tweeter, rede social que mantém meu fio-terra ligado Brasil querido. Acompanho pessoas que conheço e desconhecidos que merecem minha atenção. E eles se distrubuem em distintos partidos e tendências políticas. Durante a campanha fui presenteada com um dos melhores laboratórios sobre a alma humana, suas tolerâncias e, principalmente, seus ódios, preconceitos.

A primeira manifestação que me acendeu a luz amarela não veio de nenhuma estúpida paulistinha (perceberam meu preconceito com o uso do diminuitivo?) de 21 anos, eleitora do candidato derrotado.

Lamentavelmente, veio de um dos mais atuantes deputados, professor de História do Brasil, com livros publicados e pessoa a quem, até então, eu mantinha muita admiração. Trata-se do deputado Chico Alencar. Logo depois do anúncio de Índio da Costa para compor a chapa de José Serra, essa admiração por Chico Alencar foi se esfarelando. Em cinco ou seis postagens, ele fez brincadeiras com o vice Índio da Costa (pelo qual não tenho qualquer sinal de simpatia) folclorizando características culturais dos povos indígenas. O candidato Mílton Temer fez o mesmo e quando protestei, ele se desculpou. Chico Alencar, não. Continuou sua âingênua brincadeira, o que me levou a bloquear suas mensagens.

Ora, folclorizar a cultura de um povo, considerar exóticos os hábitos de um povo, sua forma de ver o mundo são a forma mais sofisticada de preconceito. E sinceramente não consigo me convencer do que é pior, se a intolerância escrachada de uma inconsequente mulher de 21 anos ou a folclorização refinada de um importante formador de opinião pública.

Mas uma certeza tenho, somos um povo intolerante e no Brasil, igual aos demais países habituados aos racismos, o ovo da serpente não está mais sendo gerado. Ele já foi expelido e está sendo chocado nas incubadoras da França por Nikolas Sarkozy com a expulsão dos ciganos, por Angela Merkel quando diz que a diversidade foi negativa na Alemanha, em São Paulo por anônimos de mentes criminosas, em Maceió, com a matança de populações de rua e em cada lugar onde a negação do outro se tornou moeda de imposição política, social ou econômica.
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Sobre raça, a melhor definição continua sendo a de Einstein.
Quando migrou para os EUA, ao responder a pergunta sobre qual sua raça, exigência que até hoje consta dos questionários do país, não hesitou:
a Raça Humana.

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