terça-feira, 2 de novembro de 2010

Uma homenagem em poema

500 anos esta noite
De onde vem essa mulher
que bate à nossa porta 500 anos depois?
Reconheço esse rosto estampado
em pano e bandeiras e lhes digo:
vem da madrugada que acendemos
no coração da noite.
De onde vem essa mulher
que bate às portas do país dos patriarcas
em nome dos que estavam famintos
e agora têm pão e trabalho?
Reconheço esse rosto e lhes digo:
vem dos rios subterrâneos
da esperança,que fecundaram o trigo
e fermentaram o pão.
De onde vem essa mulher
que apedrejam, mas não se detém,
protegida pelas mãos aflitas dos pobres
que invadiram os espaços de mando?
Reconheço esse rosto e lhes digo:
vem do lado esquerdo do peito.
Por minha boca de clamores e silêncios ecoe
a voz da geração insubmissa para contar
sob sol da praça aos que nasceram
e aos que nascerão de onde vem essa mulher.
Que rosto tem, que sonhos traz?
Não me falte agora a palavra
que retive ou que iludiu a fúria dos carrascos
durante o tempo sombrio que nos coube combater.
Filha do espanto e da indignação,
filha da liberdade e da coragem,
recortado o rosto e o riso como centelha:
metal e flor, madeira e memória.
No continente de esporas de prata e rebenque,
o sonho dissolve a treva espessa, recolhe os cambaus,
a brutalidade, o pelourinho,
afasta a força que sufoca e silencia
séculos de alcova, estupro e tirania
e lança luz sobre o rosto dessa mulher
que bate às portas do nosso coração.
As mãos do metalúrgico, as mãos da multidão
inumerável moldaram na doçura do barro
e no metal oculto dos sonhos a vontade
e a têmpera para disputar o país.
Dilma se aparta da luz que esculpiu
seu rosto ante os olhos da multidão
para disputar o país, para governar o país

Pedro Tierra

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