sábado, 4 de dezembro de 2010

A Guerra do Rio - A farsa e a geopolítica do crime

"Com o tempo, uma imprensa cínica,
mercenária, demagógica e corrupta, formará
um público tão vil quanto ela mesma."
(Joseph Pulitzer)

Postado do Blog: http://somostodospalestinos.blogspot.com


A Guerra do Rio – A farsa e a geopolítica do crime

Cumprindo com compromisso de publicar notícias que não se encontram na
grande mídia, divulgamos texto do professor José Claudio S. Alves, sociólogo
da UFRRJ, sobre os acontecimentos no Rio.

Nós que sabemos que o “inimigo é outro”, na expressão padilhesca, não
podemos acreditar na farsa que a mídia e a estrutura de poder dominante no
Rio querem nos empurrar.

Achar que as várias operações criminosas que vem se abatendo sobre a Região
Metropolitana nos últimos dias, fazem parte de uma guerra entre o bem,
representado pelas forças publicas de segurança, e o mal, personificado
pelos traficantes, é ignorar que nem mesmo a ficção do Tropa de Elite 2
consegue sustentar tal versão.

O processo de reconfiguração da geopolítica do crime no Rio de Janeiro vem
ocorrendo nos últimos 5 anos.

De um lado Milícias, aliadas a uma das facções criminosas, do outro a facção
criminosa que agora reage à perda da hegemonia.

Exemplifico. Em Vigário Geral a polícia sempre atuou matando membros de uma
facção criminosa e, assim, favorecendo a invasão da facção rival de Parada
de Lucas. Há 4 anos, o mesmo processo se deu. Unificadas, as duas favelas se
pacificaram pela ausência de disputas. Posteriormente, o líder da facção
hegemônica foi assassinado pela Milícia. Hoje, a Milícia aluga as duas
favelas para a facção criminosa hegemônica.

Processos semelhantes a estes foram ocorrendo em várias favelas. Sabemos que
as milícias não interromperam o tráfico de drogas, apenas o incluíram na
listas dos seus negócios juntamente com gato net, transporte clandestino,
distribuição de terras, venda de bujões de gás, venda de voto e venda de
“segurança”.

Sabemos igualmente que as UPPs não terminaram com o tráfico e sim com os
conflitos. O tráfico passa a ser operado por outros grupos: milicianos,
facção hegemônica ou mesmo a facção que agora tenta impedir sua derrocada,
dependendo dos acordos.

Estes acordos passam por miríades de variáveis: grupos políticos hegemônica
na comunidade, acordos com associações de moradores, voto, montante de
dinheiro destinado ao aparado que ocupa militarmente, etc.

Assim, ao invés de imitarmos a população estadunidense que deu apoio às
tropas que invadiram o Iraque contra o inimigo Sadam Husein, e depois, viu a
farsa da inexistência de nenhum dos motivos que levaram Bush a fazer tal
atrocidade, devemos nos perguntar: qual é a verdadeira guerra que está
ocorrendo?

Ela é simplesmente uma guerra pela hegemonia no cenário geopolítico do crime
na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

As ações ocorrem no eixo ferroviário Central do Brasil e Leopoldina,
expressão da compressão de uma das facções criminosas para fora da Zona Sul,
que vem sendo saneada, ao menos na imagem, para as Olimpíadas.

Justificar massacres, como o de 2007, nas vésperas dos Jogos Pan Americanos,
no complexo do Alemão, no qual ficou comprovada, pelo laudo da equipe da
Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, a
existência de várias execuções sumárias é apenas uma cortina de fumaça que
nos faz sustentar uma guerra ao terror em nome de um terror maior ainda,
porque oculto e hegemônico.

Ônibus e carros queimados, com pouquíssimas vítimas, são expressões
simbólicas do desagrado da facção que perde sua hegemonia buscando um novo
acordo, que permita sua sobrevivência, afinal, eles não querem destruir a
relação com o mercado que o sustenta.

A farça da operação de guerra e seus inevitáveis mortos, muitos dos quais
sem qualquer envolvimento com os blocos que disputam a hegemonia do crime no
tabuleiro geopolítico do Grande Rio, serve apenas para nos fazer acreditar
que ausência de conflitos é igual à paz e ausência de crime, sem perceber
que a hegemonização do crime pela aliança de grupos criminosos, muitos
diretamente envolvidos com o aparato policial, como a CPI das Milícias
provou, perpetua nossa eterna desgraça: a de acreditar que o mal são os
outros.

Deixamos de fazer assim as velhas e relevantes perguntas: qual é a atual
política de segurança do Rio de Janeiro que convive com milicianos, facções
criminosas hegemônicas e área pacificadas que permanecem operando o crime?

Quem são os nomes por trás de toda esta cortina de fumaça, que faturam alto
com bilhões gerados pelo tráfico, roubo, outras formas de crime, controles
milicianos de áreas, venda de votos e pacificações para as Olimpíadas? Quem
está por trás da produção midiática, suportando as tropas da execução
sumária de pobres em favelas distantes da Zona Sul? Até quando seremos
tratados como estadunidenses suportando a tropa do bem na farsa de uma
guerra, na qual já estamos há tanto tempo, que nos faz esquecer que ela tem
outra finalidade e não a hegemonia no controle do mercado do crime no Rio de
Janeiro?

Mas não se preocupem, quando restar o Iraque arrasado sempre surgirá o
mercado finaneiro, as empreiteiras e os grupos imobiliários a vender
condomínios seguros nos Portos Maravilha da cidade.

Sempre sobrará a massa arrebanhada pela lógica da guerra ao terror, reduzida
a baixos níveis de escolaridade e de renda que, somadas à classe média em
desespero, elegerão seus algozes e o aplaudirão no desfile de 7 de setembro,
quando o caveirão e o Bope passarem.

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