sábado, 19 de fevereiro de 2011

Base do governo será menos coesa nos próximos embates, prevê Diap



Por: Virginia Toledo, Rede Brasil Atual

Unidade da base foi inédita na história do Congresso Nacional (Foto: JBatista/Agência Câmara)

São Paulo – Base articulada e condução impecável do debate com a oposição foram determinantes para o governo alcançar a vitória no primeiro embate da gestão no Legislativo, segundo Antônio Augusto de Queiroz, diretor do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap). Para ele, a margem para a aprovação do novo salário mínimo não deve se repetir em futuros embates. O fato de a base de Dilma Rousseff ter alcançado uma unidade "jamais vista" em votações no Congresso Nacional não garante que as próximas articulações possam ser tão bem-feitas.

Após cerca de três meses de discussão e tentativas de acordo, o governo garantiu a aprovação, na quarta-feira (16), do valor de R$ 545 para o salário mínimo de 2011, além de uma política de reajustes até 2015. Mesmo com a tentativa das centrais sindicais de estabelecer o valor de R$ 560, a decisão do governo prevaleceu, garantindo uma vantagem de 240 a 270 votos para a base aliada.

Queiroz destaca, de um lado, a capacidade de articulação dos líderes do governo com os partidos que compõem a bancada e, de outro, a ação do presidente da Câmara dos Deputados, Marco Maia (PT/RS). A primeira parte evitou dissidências e garantiu o grau inédito de unidade.

A condução dos trabalhos por Maia não excluiu representantes dos partidos de oposição do debate, permitindo que tentassem recursos para atrasar e questionar o texto, com base em termos regimentais e detalhes legais. "O presidente estabeleceu acordos de procedimento e permitiu que a oposição defendesse seu ponto de vista, que por sua vez se comportou de maneira magistrada", definiu Queiroz.

Perspectivas

Apesar do êxito do conjunto de ações pontuais que resultou na vitória, o diretor do Diap acredita que, nas próximas votações, o governo não terá tanta tranquilidade. Por ser uma votação classificada como de "demonstração" pelo cientista política, a presença e o empenho de lideranças da base foram os diferenciais. Nas próximas votações, o patamar de assiduidade e de coesão entre os partidos tenderão a diminuir.

Em sua análise, o analista acredita que a oposição poderá, eventualmente, agregar 10 ou 15 votos nas próximas votações. No entanto, se o governo mantiver a economia em índices notáveis de crescimento e estiver de acordo com aquilo que foi pactuado com os partidos aliados, não serão surpreendidos com resultados distintos, como este da decisão do salário mínimo.

PDT e PMDB

Dois dos partidos da base governista foram protagonistas da votação, o PDT e o PMDB. Enquanto o primeiro, do deputado Paulo Pereira da Silva, o Paulinho (SP), teve nove dissidentes, o segundo votou 100% com o governo.

Para Queiroz, a posição de Paulinho foi estratégica, de um governista que precisava se justificar para sua base, da Força Sindical, da qual é presidente. O comportamento do PMDB é explicado pelo analista a partir da ação dos líderes da bancada. É justamente da legenda do vice-presidente Michel Temer que devem sair, na visão do diretor do Diap, os dissidentes nas próximas votações.

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POESIA Poemas mortais
ANELITO DE OLIVEIRA -


A Frederico Barbosa
Luís Eustáquio Soares
Narlan Mattos
Jairo Faria Mendes
Joca Wolff
Jomard Muniz de Brito
e Jorge Salomão


1.

É melhor retornar à poesia
É melhor desistir de problematizações supostamente inteligentes para corresponder a demandas de pessoas supostamente inteligentes que são, no fundo, profundamente estúpidas
É melhor não problematizar ideias supostamente interessantes que são, no fundo, profundamente desinteressantes
É melhor retornar à poesia
Seja lá o que isso signifique
Apenas pelo fato de que não consiste em problematizações supostamente inteligentes de que ninguém, obviamente, tomará conhecimento
É melhor retornar à poesia
É melhor retornar ao lugar de onde parti ao lugar onde alguém desinteressado está a ver a vida
Seja lá onde for
É melhor suspender ansiedades burocráticas
É melhor não esperar por nada
Retornar apenas
À poesia
É melhor retornar e não sair mais de lá
Ficar lá
Sozinho
Em meio às coisas sem importância nenhuma
Lá dentro do mundo
Alheio aos espetáculos urbanos


2.


Às vezes alguém compra pão
Numa padaria qualquer que encontra pela frente
Ao final da tarde
Para encontrar algum sentido na vida
Ainda
Às vezes alguém
Sem fome nenhuma
Entra numa padaria qualquer
E pede 100 gramas de salgado
Sem se importar com nomes
Apenas salgados
E uma xícara de café
Para encontrar algum sentido na vida
Ainda
Mesmo que seja por alguns minutos
Só isso


3.


Quando diremos a verdade?
Quando dizer a verdade será melhor que estar empregado?
Quando diremos a verdade mesmo se por isso formos demitidos?
Quando dizer a verdade será melhor que dizer mentiras estratégicas?
Quando diremos apenas a verdade,
Não mais que a verdade,
Só a verdade?


4.


Fede maconha, mas ninguém fuma maconha na rua, na cidade, na região, no estado, no país, em lugar nenhum,
Ninguém assume que fuma maconha aqui, todos são santos, não só não fumam maconha, não usam droga nenhuma, são contra todas as drogas, a começar pela maconha, são contra a discriminalização das drogas no país, inclusive da maconha.
Fede maconha no meio da noite, mas ninguém fuma maconha por aqui, todos são santos, todos são sérios, todos são puros,
E é estranho, portanto, que esteja fedendo maconha nesta hora, que esse cheiro forte atravesse a janela e entre aqui neste quarto, enigmaticamente,
Como se nada tivesse acontecendo.
Como sempre, nada nunca acontece por aqui.
Sempre estivemos em Dogville.


5.


Nada precisa de perfeição.
Como está, está perfeito, tal como pode ser. Mas queremos beleza,
E por beleza entendemos o que somos – beleza é a imagem que cultivamos.
Tudo que não somos, que não é como somos, não nos agrada.
E passamos grande parte da vida a lutar contra o mundo.
Não é uma coisa, ou algumas, que não estão de acordo com nossa ideia de beleza.
O mundo todo é horrível aos nossos olhos.
Mesmo o que dizem que é belo, que todos admiram, acaba por nos desagradar mais
cedo ou mais tarde.
Por isso, destruímos tudo a nossa volta.
A cada olhar, a cada toque, a cada respiro, acionamos nosso ódio contra o mundo.
Não suportamos nada nem ninguém.
No fundo, o que nos dá prazer na vida é a capacidade de matar
Com que nascemos.


6.


Waly tentava escrever o mundo, que não era, nunca foi, passível de ser escrito, escrevível.
Waly ultrapassava o mundo sempre que tentava escrever o mundo – o mundo escapava, automático, nos seus olhos.
Waly, o desejante, ultrapassava o mundo
Ou era – é possível pensar – ultrapassado pelo mundo sempre que tentava, às pressas, escrever o próprio mundo.
Escrevia o caos no lugar do mundo, o outro lado do cosmos, o que estava lá, abaixo do mapa, desconhecido.
Com razão, admirava Merleau-Ponty, o mundo não é alcançável. Alias, nenhuma coisa é alcançável nesta vida – mundo é, na verdade, “mundo”.
Waly queria tirar as aspas não só do mundo, mas de todas as coisas. Waly queria desaspar tudo a sua volta, sobretudo as pessoas, como quem desossa animais, para que tudo fosse agressivamente vivaz.
Nas suas mãos vorazes, tudo urrou - palavras, imagens, sensações – por um instante mais além do que cotidianamente é, tudo deixou de ser e voltou a ser, todavia,
O quase, o suportável, a promessa.
Waly esbarrava na razão e lá se indignava e de lá falava quando tentava, na sua colérica solidão, escrever este mundo.



7.


Não estamos preparados para morrer, tampouco para viver.
Nossa pretensão humana chega ao ponto de ignorar a coisa ridícula que somos, a coisa ignorante que somos, a coisa limitada que somos.
Não estamos preparados para nada.
Ninguém nos preparou para nada.
Um gesto grosseiro nos trouxe aqui. Outro gesto, igualmente grosseiro, nos levará daqui.
Se há algo que queremos evitar é a nossa própria condição humana num mundo cínico. Se há algo que queremos esquecer é o que temos sido.
Temos sido a enganação. Para o mundo. Para os outros. Para nós mesmos. Temos sido o que não somos.
A enganação se consolidou como nossa única condição de ser. Enganar, enganar-se, para ser feliz.
Uma felicidade enganosa.
A enganação é a nova feição da nossa ignorância. A enganação é a velha feição da nossa ignorância.
Ignorantes, desconhecemos nossa própria infelicidade. Ignorantes, rimos, felizes, da cara da nossa infelicidade. Ignorantes, temos vivido a infelicidade como felicidade.
Temos sido a enganação.
Não estamos preparados para morrer, tampouco para viver.
Morreremos ignorantes, como temos vivido, ignorantes.

anelito de oliveria
http://anelitodeoliveira.blogpsot.com/


O vento leste do feminismo

A participação das mulheres no primeiro escalão do governo da presidenta Dilma pode ser creditada à luta de ativistas como Heloneida Studard. Sua lucidez a levava a compreender o feminismo como parte de uma transformação geral no mundo, em que a libertação das mulheres diz respeito à libertação dos homens em geral.

Gilson Caroni Filho no sítio CartaMaior

Um sopro de vento percorreu o saguão da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, onde, na tarde de 3 de dezembro de 2007, foi velado o corpo da parlamentar, jornalista, escritora e ativista Heloneida Studard. Três anos antes da eleição da primeira mulher para a Presidência da República, o Brasil perdeu uma militante que sempre agiu a descoberto, cabeça erguida no espaço das intempéries, desdenhando, com um humor desconcertante, os que a ela se opunham nas diversas frentes em que combateu.

O feminismo de Heloneida, como ação política concreta, englobava teoria, prática e ética, tomando a mulher como sujeito histórico de transformação da sua própria condição social. Sabia que a luta pela emancipação feminina, e pela afirmação de todos os seus direitos à igualdade com o homem, é uma das grandes causas da nossa época. Ao abraçá-la, rejeitou falácias e equívocos que tendem, na prática, a produzir desvirtuamentos e atrasos. Não atribuiu graus de prioridade às diferentes lutas por uma sociedade mais justa. Se por um lado a dominação do homem sobre a mulher não é uma criação do capitalismo, nem resulta da divisão da sociedade em classes, o ideal socialista só pode ser qualificado de genuíno e real na medida em que proponha a libertação do conjunto social.

A divisão igualitária das posições de poder e prestígio, da cultura e da produção, assim como a distribuição equitativa das tarefas, tanto na vida social como no âmbito doméstico, entre homens e mulheres, é um objetivo que requer tenacidade e desassombro, duas características que nunca faltaram a essa cearense, mãe de seis filhos, e cozinheira de mão cheia.

Helô, como gostava de ser chamada pelos amigos, sabia apreender dialeticamente a luta das mulheres nos países periféricos. Seria um equívoco completo afirmar que todas as militantes que, na América Latina e na África, lutam por seus direitos tenham como meta final a construção do socialismo. Mas é possível afirmar que a maioria delas se constitui como sujeitos históricos relevantes, a partir de movimentos sociais e políticos, que levantam plataformas de luta e programas de trabalho questionadores do status quo, postulando a criação de uma sociedade baseada na igualdade e na justiça social.

Embora Heloneida soubesse que a discriminação da mulher não termina num passe de mágica com a construção do socialismo, a superação da sociedade de classes é necessária para eliminar a exploração e discriminação próprias do capitalismo.

Foi nesse fio tênue que construiu sua trajetória. A partir daí se impõe que a luta pelos direitos específicos de gênero demandem ações políticas simultâneas e em todos os planos permitidos pela realidade concreta, para assegurar o respeito aos direitos. É longo, e penoso, o caminho para o cumprimento da promessa de Lênin, segundo a qual “é preciso fazer de cada cozinheira uma estadista". A revolução, sem dúvida, é feminina.

Com seu fino senso de humor, a militante incansável registrava, em ensaio publicado no "Livro da Cabeceira da Mulher” (Civilização Brasileira, 1975): ”não há movimento sério que não tenha suas alas radicais. São militantes que não só desconhecem a realidade, como encampam idéias que apenas servem para expressar as suas neuroses (...) o que elas querem é que as mulheres mudem seus hormônios, abram mão das suas leis biológicas ditadas por suas glândulas. Ou seja: que lancem fora a lei física que lhes deu útero, vagina, seios e a par disso o impulso profundo em direção ao macho. Querem não uma mudança política, mas uma mudança de metabolismo". Definitivamente, Heloneida nunca calou divergências para evitar confrontos.

Sua lucidez a levava a compreender o feminismo como parte de uma transformação geral no mundo inteiro, em que a libertação das mulheres diz respeito à libertação dos homens em geral. É um processo molecular, atravessado por avanços e recuos, mas que se configura com força cada vez maior.

A participação das mulheres no primeiro escalão do governo da presidente Dilma pode ser creditada à luta de ativistas como Heloneida. Ambas, embora com perspectivas distintas, partilham a mesma poética do espaço. Quatro anos depois, em algum ponto de equilíbrio, o mesmo vento leste do saguão sopra no Palácio do Planalto. Dilma e a doce cearense finalmente se encontraram.


Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil



Tiririca é palhaço?

cara pinhé no blog http://carapinhe.blogspot.com/

Há 200 anos o palhaço que domina o picadeiro surge, mais marcadamente, em duas versões:

O excêntrico, que é o tradicional palhaço de nariz vermelho, pintura com traços exagerados, roupas largas, bengala, lógica transversa. Tem um humor grotesco, usando sempre para isso os "baixos corporais". Vê o mundo às avessas e age conforme essa lógica. Foram excêntricos os palhaços Torresmo (na foto), Arrelia, Carequinha, Piolin.

O clown, sua contraparte, veste-se luxuosamente, tem o rosto pintado de branco e usa um chapéu em forma de cone, na maioria das vezes. Ele representa a ordem. No embate com o excêntrico, a visão atravessada de mundo acaba acachapando-o. Foram grandes clowns os palhaços Alcebíades, Benjamim de Oliveira, Henrique e Pimentinha (na foto). Curiosamente no circo brasileiro prevaleceu o palhaço excêntrico, ao contrário do que aconteceu na Europa e nos Estados Unidos. Por isso, talvez, palhaços como o Bozo e o Ronald McDonald sejam tão sem graça: eles incorporam a ordem e não a desordem.

Enfim, ao objeto desse post: Tiririca, o palhaço que virou deputado. Palhaço? Ora, ele veste peruca, chapéu, retira a ponte da boca, usa roupas estranhas... Não, a sua vestimenta não é a de um palhaço. Nem a sua caracterização. Certamente ele é um cômico que representa um personagem. Aliás, diga-se, foi este personagem o eleito, não o tímido Francisco Everardo. No entanto, curiosamente também (costumamos achar curioso aquilo que causa dissonância, aquilo que foge aos maniqueísmos), muitos circenses o consideram seu legítimo representante político.

Para quem acompanhou-o na votação do salário mínimo, na quarta passada, confirmou sua lógica transversa: faz parte da base aliada mas na hora de apertar o botão, votou contra a proposta do governo, dizendo ter votado a favor do povo. Resta saber se, dizendo-se palhaço, fará algo pela classe circense, ou se pelos 1,3 milhão de eleitores que apertaram as teclas da urna acreditando piamente que "pior que tá não fica".

(Esse post foi elaborado a partir do comentário da Laura no post sobre os insossos BBBs.)

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