domingo, 27 de março de 2011

black billy


ela tinha um jeito gal
fatal – vapor barato
toda vez que me trepava as unhas
como um gato
cantar era seu dom
chegava a dominar a voz
feito cigarra cigana ébria
vomitando doses dos eu canto

uma vez só subiu ao palco
estrela no hotel das prateleiras
companheira de ratos
na pele de insetos
praticando a luz incerta
no auge do apogeu

a morte não é muito mais
que um plug elétrico
um grito de guitarra uma centelha
logo assim que ela começa
algo se espelha
na carne inicial de quem morreu

a traição das metáforas

era 95 e no lance de dados deu 5 quinta feira ouro preto os retalhos imortais do serafim entram  em cena nos porões de brazilírica a república do faz de conta onde pastor de andrade na disputa passional por gigi da bateria  instala o reino das propinas em campos dos goytacazes desde então denominada goyta city

federika lady gumes macabea e eu federico baudelaire os quatro cavaleiros do após calypso infiltrados nas entranhas desse desenredo inventamos então a mocidade independente de padre olivácio a escola de samba oculta no inconsciente coletivo para o que der e o que não der pois naquele mesmo instante percebemos que macabea era estrela que não sobe e se tornaria letra fora do nosso samba/enredo

federika não gosta do homem mas não gosta da mulher do homem e acha que lê não tem bala na agulha para segurar o trampo na hora do GH segundo clarice lispector e até hoje não entende como macabea continua a dar as cartas no presídio federal das artes cínicas ela conhece bem a peça em seus mínimos detalhes e sabe que o romance é pura conveniência para compra de votos em momentos de disputas eleitorais

federika desconfia que o meu samba é uma homenagem a ex-amante turca mas ela bem sabe que “em meu quintal rosinhas nunca mais” é citação de mamãe que é brega mas é xique mesmo assim  mesmo joga da minha cara que ainda ando despetalando rosas mesmo sabendo que o espinho é mais embaixo e o meu samba mais em cima

eu tenho a faca entre os dentes
olho a rua e dou de cara
com nossa senhora de copacabana
minha ex-amante passeia de patins
ouvindo adriana calcanhoto
ao largo do canal
não choro mascaro minha dor
e lanço as mágoas pelo chão
o remédio é que não sou wally salomão
nem muito bem nem menos mal
costuro a nova mortalha
no país do carnaval

tire o seu piercing do caminho que eu quero passar com a minha dor – tinha eu meus pensamentos nos versos de nelson cavaquinho nessa versão pós punk de zeca baleiro mas federika não quer mais saber de porta bandeira da mocidade agora afirma que vai desfilar no império da serrinha da assembléia de deus do ministério de madureira elevo meus pensamentos para os anos 69 e como paulinho da viola ainda tenho o rio que passou em minha vida no meu coração que se deixou levar

federicobaudelaire

Piercing
Zeca Baleiro (1998)


tire o seu piercing do caminho
que eu quero passar com a minha dor

pra elevar minhas idéias não preciso de incenso
eu existo porque penso
tenso por isso insisto
são sete as chagas de cristo
são muitos os meus pecados
satanás condecorado
na tv tem um programa
nunca mais a velha chama
nunca mais o céu do lado
disneylândia eldorado
vamos nós dançar na lama
bye bye adeus gene kelly
como santo me revele
como sinto como passo
carne viva atrás da pele
aqui vive-se à míngua
não tenho papas na língua
não trago padres na alma
minha pátria é minha íngua
me conheço como a palma
da platéia calorosa
eu vi o calo na rosa
eu vi a ferida aberta
eu tenho a palavra certa
pra doutor não reclamar
mas a minha mente boquiaberta
precisa mesmo deserta
aprender aprender a soletrar

não me diga que me ama
não me queira não me afague
sentimento pegue e pague
emoção compre em tablete
mastigue como chiclete
jogue fora na sarjeta
compre um lote do futuro
cheque para trinta dias
nosso plano de seguro
cobre a sua carência
eu perdi o paraíso
mas ganhei inteligência
demência felicidade
propriedade privada
não se prive não se prove
don't tell me peace and love
tome logo um engov
pra curar sua ressaca
da modernidade essa armadilha
matilha de cães raivosos e assustados
o presente não devolve o troco do passado
sofrimento não é amargura
tristeza não é pecado
lugar de ser feliz não é supermercado

o inferno é escuro
não tem água encanada
não tem porta não tem muro
não tem porteiro na entrada
e o céu será divino
confortável condomínio
com anjos cantando hosanas
nas alturas nas alturas
onde tudo é nobre
e tudo tem nome
onde os cães só latem
pra enxotar a fome
todo mundo quer quer
quer subir na vida
se subir ladeira espere a descida
se na hora h o elevador parar
no vigésimo quinto andar
der aquele enguiço
sempre vai haver uma escada de serviço

todo mundo sabe tudo todo mundo fala
mas a língua do mudo ninguém quer estudá-la
quem não quer suar camisa não carrega mala
revólver que ninguém usa não dispara bala
casa grande faz fuxico quem leva a fama é a senzala
pra chegar na minha cama tem que passar pela sala
quem não sabe dá bandeira quem sabe que sabia cala
liga aí porta-bandeira não é mestre-sala
e não se fala mais nisso mas nisso não se fala



esfinge


o amor
não e apenas um nome
que anda por sobre a pele

um dia falo letra por letra
no outro calo fome por fome
é que a pele do teu nome
consome a flor da minha pele

cravado espinho na chaga
como marca cicatriz
eu sou ator ela esfinge
clarisse/beatriz

assim vivemos cantando
fingindo que somos decentes
para esconder o sagrado
em nosso profanos segredos

se um dia falta coragem
a noite sobra do medo

na sombra da tatuagem
sinal enfim permanente
ficou pregando uma peça
em nosso passado presente

o nome tem seus mistérios
que se esconde sob panos

o sol e claro quando não chove
o sal e bom quando de leve
para adoçar desenganos
na língua na boca na neve

o mar que vai e vem
não tem volta

o amor é a coisa mais torta
que mora lá dentro de mim
teu céu da boca e a porta
onde o poema não tem fim

Nenhum comentário:

Postar um comentário