sexta-feira, 27 de maio de 2011

Palocci. Uma “herança maldita”?

O mais importante, entretanto, é o prestígio de que goza Palocci no mercado


Cesar Sanson no Brasil de Fato

As denúncias de rápido enriquecimento do ministro Antonio Palocci – acusado de multiplicar o próprio patrimônio por 20 em um período de quatro anos – interromperam a calmaria do governo Dilma Rousseff.

Até então, a maior tensão que vinha sendo administrada no primeiro escalão envolvia a ministra da Cultura Ana de Hollanda. Agora, as coisas mudaram. As denúncias colocam em primeira cena um ministro que ocupa um posto estratégico no governo, responsável por importantes negociações e decisões. Ainda mais, Palocci joga papel chave nas nomeações políticas e é destacado interlocutor junto ao Congresso.  Antes da crise, Palocci era apontado no PT como um possível pré-candidato à Presidência em 2018.

O mais importante, entretanto, é o prestígio de que goza Palocci no mercado. Prestígio esse que interessa ao governo, assim como interessa ao mercado ter um nome de sua confiança no governo.

A estratégia até o momento do Palácio do Planalto tem sido a de blindar Palocci, impedindo a convocação do ministro para prestar depoimento sobre o caso na Câmara. Estratégia que tem o seu preço político: concessões e nomeações. As notícias da imprensa e de ONG’s que acompanham a crise dão conta de que o governo aceitou votar o Código Florestal para evitar a convocação de Palocci no Congresso. A crise que envolve o ministro virou moeda de troca na mão dos ruralistas, que como poucos sabem utilizar crises que envolvem o governo em benefício próprio.

Antonio Palocci fez carreira política meteórica – de militante da corrente trotskista Libelu, passando pela prefeitura da cidade de Ribeirão Preto, chegando a cargos chaves no governo federal. A ascensão meteórica de Palocci se cruza indiretamente com o assassinato do prefeito de Santo André, Celso Daniel. Com a vitória de Lula em 2002, Celso Daniel foi nomeado como coordenador da equipe de transição. Com o seu assassinato inesperado, Palocci assume a função de coordenador da transição e vai ganhando destaque em meio aos meses de turbulência que antecedem a posse de Lula.

Foi principalmente de Palocci, com o apoio de José Dirceu e Luiz Gushiken, a ideia da Carta ao Povo brasileiro com o intuito de acalmar o mercado. A Carta também ficou conhecida como a Carta de Ribeirão Preto, em função do papel protagonista de Palocci. O documento escrito às pressas, mas calculadamente nas eleições de 2002, afirma o compromisso do governo Lula em honrar os pagamentos com os credores e sinaliza que o governo manteria a macroeconomia do governo anterior, tendo como pilares a disciplina fiscal e monetária.

A “Carta” foi levada à risca por Meirelles nomeado por Lula como presidente do Banco Central, e por Palocci no Ministério da Fazenda no primeiro ano do governo Lula. Aumento na taxa de juros, aumento do superávit primário, cortes no orçamento que atingiram a área social, renovação do acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), entre outras, foram medidas introduzidas pela dupla Meirelles-Palocci que fizeram jus ao que se prometeu na Carta ao Povo brasileiro.

Começava aí a forte relação de Palocci com o mercado, sobretudo o financeiro. Relação essa que Palocci já cultivava em Ribeiro Preto à frente da prefeitura. Em Ribeirão, Palocci imprimiu um modelo de administração liberal com as parcerias públicas-privadas e a abertura do capital da Ceterp, a companhia telefônica municipal. Medidas essas consideradas pelo PT à época como neoliberais.

As medidas de austeridade, corte no orçamento, aumento de juros e do superávit primário no início do governo Lula fizeram a alegria do mercado financeiro e tiveram em Palocci o seu principal avalista. Enquanto José Dirceu transitava com desenvoltura no mundo da política, Palocci fazia o mesmo junto ao mercado.

O fato inconteste é que o nome de Palocci no governo Lula, e isso vale para o governo de Dilma, passou a figurar como “fiador” do PT junto ao mercado. Palocci “não tem poder apenas porque isso foi conferido a ele pela presidente da República, Dilma Rousseff, mas pela capacidade de se investir do papel de fiador de governos petistas, principalmente, junto ao mercado”, comenta a jornalista Maria Inês Nassif.

A força de Palocci vem dos tempos em que reinou absoluto na área econômica, conhecida como a “Era Palocci”. A “Era Palocci” que deu prestígio ao ministro junto ao mercado está relacionado à sua conhecida afinidade com as teses do “Consenso de Washington”.  Teses essas que do ponto de vista econômico apontam para a disciplina fiscal, ou seja, um Estado que privilegia a realização de superávits primários, a inflação sob rigoroso controle e o uso da taxas de juros como mecanismo central na política monetária.

Nesse momento, a questão é ser respondida é se Palocci continua sendo um ministro indispensável, ou se transformou em uma herança maldita a ser administrada.


Cesar Sanson é pesquisador do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores e doutor em sociologia pela UFPR

Artigo originalmente publicado na Radioagência NP

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