quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Pablo Neruda - 5 Poemas de Amor


Pablo Neruda na voz de Artur Gomes amanhã no Centro Cultural Luciano Bastos em Bom Jesus do Itabapoana-RJ

Se Me Esqueceres

Quero que saibas 
uma coisa. 

Sabes como é: 
se olho 
a lua de cristal, o ramo vermelho 
do lento outono à minha janela, 
se toco 
junto do lume 
a impalpável cinza 
ou o enrugado corpo da lenha, 
tudo me leva para ti, 
como se tudo o que existe, 
aromas, luz, metais, 
fosse pequenos barcos que navegam 
até às tuas ilhas que me esperam. 

Mas agora, 
se pouco a pouco me deixas de amar 
deixarei de te amar pouco a pouco. 

Se de súbito 
me esqueceres 
não me procures, 
porque já te terei esquecido. 

Se julgas que é vasto e louco 
o vento de bandeiras 
que passa pela minha vida 
e te resolves 
a deixar-me na margem 
do coração em que tenho raízes, 
pensa 
que nesse dia, 
a essa hora 
levantarei os braços 
e as minhas raízes sairão 
em busca de outra terra. 

Porém 
se todos os dias, 
a toda a hora, 
te sentes destinada a mim 
com doçura implacável, 
se todos os dias uma flor 
uma flor te sobe aos lábios à minha procura, 
ai meu amor, ai minha amada, 
em mim todo esse fogo se repete, 
em mim nada se apaga nem se esquece, 
o meu amor alimenta-se do teu amor, 
e enquanto viveres estará nos teus braços 
sem sair dos meus. 

Pablo Neruda, in "Poemas de Amor de Pablo Neruda"



Corpo de Mulher...

Corpo de mulher, brancas colinas, coxas 
                                                          [brancas, 
pareces-te com o mundo na tua atitude de 
                                                          [entrega. 
O meu corpo de lavrador selvagem escava em ti 
e faz saltar o filho do mais fundo da terra. 

Fui só como um túnel. De mim fugiam os 
                                                          [pássaros, 
e em mim a noite forçava a sua invasão 
                                                          [poderosa. 
Para sobreviver forjei-te como uma arma, 
como uma flecha no meu arco, como uma pedra 
                                                 na minha funda. 

Mas desce a hora da vingança, e eu amo-te. 
Corpo de pele, de musgo, de leite ávido e firme. 
Ah os copos do peito! Ah os olhos de ausência! 
Ah as rosas do púbis! Ah a tua voz lenta e 
                                                          [triste! 

Corpo de mulher minha, persistirei na tua graça. 
Minha sede, minha ânsia sem limite, meu 
                                                          [caminho indeciso! 
Escuros regos onde a sede eterna continua, 
e a fadiga continua, e a dor infinita. 

Pablo Neruda, in "Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada"



Amor

Mulher, teria sido teu filho, para beber-te 
o leite dos seios como de um manancial, 
para olhar-te e sentir-te a meu lado e ter-te 
no riso de ouro e na voz de cristal. 

Para sentir-te nas veias como Deus num rio 
e adorar-te nos ossos tristes de pó e cal, 
para que sem esforço teu ser pelo meu passasse 
e saísse na estrofe - limpo de todo o mal -. 

Como saberia amar-te, mulher, como saberia 
amar-te, amar-te como nunca soube ninguém! 
Morrer e todavia 
amar-te mais. 
E todavia 
amar-te mais 
                           e mais. 

Pablo Neruda, in "Crepusculário" 
Tradução de Rui Lage



Grita

Amor, quando chegares à minha fonte distante, 
cuida para que não me morda tua voz de ilusão: 
que minha dor obscura não morra nas tuas asas, 
nem se me afogue a voz em tua garganta de ouro. 

                Quando chegares, Amor 
                à minha fonte distante, 
                sê chuva que estiola, 
                sê baixio que rompe. 

                Desfaz, Amor, o ritmo 
                destas águas tranquilas: 
sabe ser a dor que estremece e que sofre, 
sabe ser a angústia que se grita e retorce. 

                Não me dês o olvido. 
                Não me dês a ilusão. 
Porque todas as folhas que na terra caíram 
me deixaram de ouro aceso o coração. 

                Quando chegares, Amor 
                à minha fonte distante, 
                desvia-me as vertentes, 
                aperta-me as entranhas. 

E uma destas tardes - Amor de mãos cruéis -, 
ajoelhado, eu te darei graças. 

Pablo Neruda, in "Crepusculário" 
Tradução de Rui Lage


Sempre

Ao contrário de ti 
não tenho ciúmes. 

Vem com um homem 
às costas, 
vem com cem homens nos teus cabelos, 
vem com mil homens entre os seios e os pés, 
vem como um rio 
cheio de afogados 
que encontra o mar furioso, 
a espuma eterna, o tempo. 

Trá-los todos 
até onde te espero: 
estaremos sempre sozinhos, 
estaremos sempre tu e eu 
sozinhos na terra 
para começar a vida. 

Pablo Neruda, in "Poemas de Amor de Pablo Neruda"


A convite de Paula Bastos Pró Reitora de Extensão do IFF, estarei amanhã no Centro Cultural Luciano Bastos, em Bom Jesus do Itabapoana, fazendo uma leitura dramática desses poemas acima do poeta chileno Pablo Neruda.


artur gomes
www.artur-gomes.blogspot.com

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