quarta-feira, 19 de setembro de 2012

SE TODOS FOSSE IGUAIS A VOCÊ


foto: artur gomes
Foi a literatura que me presenteou com a amizade de Rita Maria de Abreu Maia. Rita de muitos lugares: São Fidélis, Vitória, Campos, Lisboa, Niterói. Rita de grandes amores: Carlos Orlando, Leonardo, Thaís e Lucas. Rita de muitas funções: professora, pesquisadora, escritora, secretária de cultura, coordenadora e, sobretudo, criadora e multiplicadora de linguagens e códigos.
Rita nos deixou na última quarta-feira quando sua vida se alojou, em definitivo, nos subterrâneos de nossas memórias. Eu a conheci, com o sorriso largo de sempre, na cantina da Faculdade de Letras da UFRJ, em 1991. Não fosse sua natural espontaneidade, talvez, aquele momento tivesse passado, e nossa amizade se adiado por alguns anos. Eu tomava um cafezinho acompanhada de um amigo para quem contava minha aprovação num concurso para o magistério estadual e a preocupação em me dividir entre o Mestrado lá na UFRJ, as aulas no Colégio de Aplicação e as novas aulas em Campos. Como fora aprovada nesse mesmo concurso e me conhecesse de nome, ou, verdade seja dita, por “ser filha de quem sou”, aproximou-se de mim sem que eu percebesse e perguntou: “Você é a Analice?”.
Daquele momento em diante, minha vida pessoal e profissional se faria acompanhar de sua luminosa presença para sorte minha. Rita também fazia Mestrado naquela ocasião. Defendeu sua dissertação em 1994, como eu. Fizemos o concurso de 1993 para o hoje IFF (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia) e fomos chamadas em 1995, datando daí nossa amizade mais constante, ou deveria dizer, as lições de vida que me deixou e, tenho certeza, em muitos de nossos colegas de coordenação.
Sempre me deslumbrou sua capacidade nominativa. Para tudo Rita tinha um título perfeito. Além de criar o projeto, pensar as formas de viabilizá-lo, tragar-nos com a força de seu entusiasmo, ainda nos brindava com o nome. Sempre achei difícil nomear, com precisão e glamour, de forma sintética e sedutora, qualquer texto, capítulo, artigo, evento, disciplina. Aliás, continuo achando. Rita não! Os títulos já lhe vinham com a ideia, borbulhavam em sua imaginação e pulavam para o papel ou para tela com facilidade.
Nomear é dar existência. As coisas só existem de fato quando nomeadas. A Química, a Biologia, a Física e a História que me desculpem, mas é a Língua que cria. Já a literatura liberta as palavras de sua escravidão sequencial e obediente. Nisso e em quase todo o resto, Rita foi inigualável. No IFF, fez nascer os CURTOS PERCURSOS, encontro de âmbito regional e intenções longas: curso de capacitação para a comunidade interna e externa sobre temas linguísticos e literários. Ergueu o maior evento de nossa coordenação, o ENLETRARTE (ENCONTRO NACIONAL DE PROFESSORES DE LETRAS E ARTES). Por meio dele, contribuiu e muito para a visibilidade nacional de nosso instituto. Colocou-o em diálogo interdisciplinar com as melhores universidades do país. Trouxe à nossa planície expoentes da cultura e da pesquisa nacionais. Promoveu a capacitação de muitos professores de regiões variadas. E esteve presente no incentivo, mesmo que à distância, na edição que reafirmou os dez anos de sua existência.
Rita foi a idealizadora, em 2005, do curso de Pós-Graduação “lato sensu” em “Literatura, Memória Cultural e Sociedade”, iniciativa pioneira e ousada na rede tecnológica de ensino federal, porque capaz de escrever as humanidades com letras garrafais em solo de ciência e tecnologia. Rita foi derrubando, com todos esses esforços, as resistências ao entendimento sectário da ciência, foi adquirindo um “território” para construção da nossa sonhada Licenciatura em Letras, aprovada oficialmente para ter início no “campus” CAMPOS-CENTRO a partir de 2013. Longe de mim roubar o mérito e a dedicação de todos os professores que acreditaram em seus sonhos, levaram à frente seus projetos e até mesmo os dilataram. Mas preciso dizer que, de minha parte, sempre segui a reboque de seus sonhos, sempre lhe dei a mão com a confiança da criança que segue tranquila para o parque, para as viagens ou para o dentista. Ao seu lado, todos os temores se apequenavam, as dificuldades se encolhiam e os possíveis fracassos encontravam um colo amigo.
Eu e muitos que agora me leem temos várias lembranças pessoais, algumas até confidencias, que atestam sua imensa generosidade e expressam, como disse Vinícius de Morais a Antonio Candido, “a mão estendida para a amizade”. Rita cultivou a amizade como um bem maior. Não é por outra razão que sua partida prematura, aos nossos olhos amantes, deixa-nos profundamente solitários. Para os que não a conheceram, relembro um episódio que a traduz muito bem. Estava indo de carro para o Rio. Num cruzamento da cidade, encontrei Rita e Carlos Orlando num táxi também em direção ao Rio. Abaixei o vidro e os cumprimentei, lamentando que não estivéssemos juntos. Para minha surpresa e desespero de seu marido, ela, ali mesmo no meio da rua, dispensou o taxista e pulou de mala e cuia para meu carro. Seguimos estrada afora, eu e ela na frente falando sem parar, Carlos Orlando no banco de trás, cavalheiro como sempre, escutando nossas conversas infindáveis. Assim era Rita: impulsiva, alegre, radiante, determinada. Companheira de muitas viagens!

Analice de Oliveira Martins

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