quarta-feira, 3 de outubro de 2012

A Farsa e a Força

foto: artur gomes


Guardo cinco segredos
nos dedos desta mão.
Faço a soma dos medos
na folha de urtigão.


Tudo à volta entristece:
o ermo, o solo, o entrevero.


A farsa face a face
com a força mais fere.
Face invertida e falsa,
a façanha da foice.
Nem a farsa falsete,
nem a força forçada.

Há a recusa do chão,
só uma face ferida.
A farsa contra a força
é poesia impune.

Mas peço um canto santo
onde tão dura a farsa,
onde tão lume a força.
A fé já não me aplaca.

Ponto de desencanto,
eu canto minha prece
bem na ponta da língua,
bem na ponta da faca.


Jorge Ventura
in Faca de Ponta, Fogo de Palha

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