quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Toninho Vaz - Solar da Fossa



Num mergulho sensacional na pele da memória da Pensão Santa Teresinha, Toninho Vaz nos mostra como na efervescência dos anos de 1960, um casarão no Rio de Janeiro, acolheu sob o seu teto expoentes da cultura popular brasileira, transformando o recinto num verdadeiro caldeirão fulinaímico. Por ali passaram Caetano Veloso, Paulo da Viola, Zé Ketti, Guarabira, Claudio Marzo, Chico Buarque, Bete Faria, só para citar alguns. Pra se ter uma idéia foi lá por exemplo que, Paulinho da Viola compôs Sinal Fechado, Chico Buarque compôs Roda Viva e Caetano Veloso compôs Alegria Alegria. Finalmente a história do Solar da Fossa de ser conhecida por todos nós. E é um livro para se ler, num fôlego só, sem respiração, um mergulho no que de melhor foi produzido na arte brasileira do século 20.  Conheci Toninho Vaz em Bento Gonçalves, durante a semana do Congresso Brasileiro de Poesia, e depois da deliciosa leitura do Solar, me dá mais vontade ainda de ler as biografias de Torquato Neto e Paulo Leminski, ambas escritas por ele.
A seguir transcrevemos o texto de Adriano Mello Costa, na noite de lançamento do Solar da Fossa na Livraria da Travessa no Rio de Janeiro.
Quem já visitou o Rio de Janeiro muito provavelmente já passou pelo Shopping Rio Sul. Um dos mais antigos da cidade maravilhosa (desde 1980), o shopping está localizado em uma área nobre do bairro de Botafogo. O que pouca gente sabe é que no lugar onde hoje o consumo carioca bate ponto, antigamente existia uma pensão que abrigou (entre 1964 e 1971) uma parte relevante da cultura e jornalismo nacional. A pensão, mais conhecida como Solar da Fossa, agora tem sua história contada em livro.
“Solar da Fossa - Um Território de Liberdade, Impertinências, Ideias e Ousadias” (256 páginas) é escrito por Toninho Vaz (autor das biografias de Torquato Neto e Paulo Leminski) e depois de algum tempo engavetado por conta de questões judiciais, finalmente ganha a primeira edição em uma parceira da Casa da Palavra com a Editora Leya. O autor – que também foi morador da famosa pensão naqueles anos – relata alguns dos fatos cotidianos dos moradores e da época em geral.
No Solar da Fossa (que no começo era só Solar, o Fossa veio depois) moraram, em algum momento das vidas, nomes como Caetano Veloso, Paulinho da Viola, Tim Maia, Paulo Coelho, Zé Keti, Cláudio Marzo, Betty Faria, Gal Costa, Maria Gladys, Naná Vasconcelos, Ruy Castro e Darlene Glória, entre tantos e tantos outros. Guardada as devidas proporções, foi uma espécie de Chelsea Hotel nacional, onde cantores, músicos, poetas e escritores se tornaram um coletivo efervescente.
Na pensão comandada por Dona Jurema nasceram músicas como “Alegria, Alegria” (Caetano) e se consolidaram parcerias entre personagens que poucos anos depois tomariam de assalto o cenário nacional. Era a época dos festivais e da libertação da juventude, que logo foi cerceada pela ditadura militar e todos seus desmandos. Era uma época em que a música, o cinema e o teatro tentavam se renovar e ir contra movimentos velhos e desgastados. Era época de se encontrar, de achar o próprio lugar.
As histórias do livro se misturam com as dos personagens e são repassadas por Toninho Vaz como se fosse um grande bate papo, constituindo um mérito do trabalho. Para reconstituir esse momento pouco documentado, o autor entrevistou diversos ex-moradores, obtendo quase sempre o testemunho: “Tenho ótimas lembranças, foi um tempo maravilhoso”. Assim, reconstruiu os quartos, as alas, a forma de convívio, os arredores, os bares e o ambiente quase lúdico que por lá reinava.
Após ler histórias (que são quase contos) divertidas, românticas e festivas, o leitor acaba inconscientemente sendo transportado para aquela época fazendo parte do local. Sendo assim, quando o Solar da Fossa teve seus moradores despejados pela Justiça para ser demolido, sente-se também um pouco da tristeza dos dias que Toninho Vaz assim definiu: “O vazio cultural deixado como sequela das divergências políticas, que duraram quase uma década, era uma realidade indigesta do país, naquele início de ano”.
Um lugar importante para a cultura nacional, onde referências se espalhavam como nos versos de “Panis Et Circenses” (“Mandei plantar folhas de sonho no jardim do solar”), ganha um registro detalhado e escrito em tom companheiro. E tem saborosas passagens, como a que diz que quando a polícia chegava, os moradores enterravam os livros subversivos (Marx, Engels, etc.) no jardim. Livros que hoje residem embaixo de um centro que vai contra aquilo que pregavam naqueles tempos.

Lançamento do livro na Livraria Argumento. Leblon, Rio de Janeiro
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- Texto: Adriano Mello Costa (siga @coisapop) assina o blog Coisa Pop

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