juras secretas - artur gomes


não fosse essa jura secreta mesmo se fosse e eu não falasse com esse punhal de prata o sal sob o teu vestido o sangue  no fluxo sagrado sem nenhum segredo esse relógio apontado pra lua não fosse essa jura secreta mesmo se fosse eu não dissesse essa ostra no mar das tuas pernas como um conto do marquês de sade no silêncio logo depois do susto



a língua
escava entre os dentes
a palavra nova
fulinaimânica/sagarínica
algumas vezes muito prosa
outras vezes muito cínica

tudo o que quero conhecer
:
a pele do teu nome
a segunda pele      o sobrenome

 no que posso no que quero
a pele em flor a flor da pele a palavra dandi em  corpo nu
a língua em fogo a língua crua a língua nova a língua nua
fulinaímica/sagaranagem palavra texto palavra imagem
quando  no céu da tua boca
a língua viva se transmuta na viagem.




não fosse esse punhal de prata 
mesmo se fosse  e eu não quisesse 
o sangue sob o teu vestido 
o sal no fluxo sagrado 
sem qualquer segredo 
esse rio das ostras
entre tuas pernas 

o beijo no instante trágico
 a língua 
sem que ninguém soubesse 
no silêncio  como susto mágico 
 e esse relógio sádico 
como um Marquês de Sade 
quando é primavera. 


Jura secreta 3



fosse essa jura sagrada
como uma boda de sangue
às 5 horas da tarde
a cara triste da morte
faca de dois gumes
naquela nova granada
e Federico Garcia Lorca
naquela noite de Espanha
não escrevesse mais nada


 
Jura secreta 4




a menina dos meus olhos
com os nervos à flor da pele
brinca de bem-me-quer
ela inda pensa que é menina
mas já é quase uma mulher




 
Jura secreta 5




não fosse essa alga
queimando em tua coxa
ou se fosse e já soubesse
mar o nome do teu macho
o amor em ti consumiria
Olga Savary
no sumidouro dos meus dias




o couro cru
na antropofágica erótica
carne viva
tua paixão em mim
voraz língua nativa


Jura secreta 6
o que passou não ficará já foi
a menina dos meus olhos
roubou a tua menina
e levou para festa do boi

fosse um Salgado Maranhão
nosso batismo de fogo
25 de março
e o morro queimando em chamas
no canto pro tempo nascer

e o amor que a gente faria
o sol acabou de fazer



Jura secreta 7

fosse Sampa uma cidade
ou se não fosse não importa
essa cidade me transporta
me transborda me alucina
me invade inter fere na retina
com sua cruel beleza

como Oswald de Andrade
e sua realidade
como Mário de Andrade
e sua delicadeza


Jura secreta 8

hoje vi na rua a palavra ibirapitanga
que eu não conhecia
e mesmo não a conhecendo
já sabia que existia
assim como:

ibirapitinga
ibiratininga
annhangabaú
anhanguera
araraquara
jabaquara
ibirapuera


Jura serceta 9

não fosse o teu amor
o meu conforto
e eu teu anjo torto
como seria
se a jura secreta
não fosse mais que um poema
e se eu não te amasse
como Glauber no cinema
o que tenho aqui
no corpo em transe: a quem daria?



Jura secreta 10
fosse o que eu quisesse
apenas um beijo roubado em tua boca
dentro do poema nada cabe
nem o que sei nem o que não se sabe

e o que não soubesse
do que foi escrito
está cravado em nós
como cicatriz no corte
entre uma palavra e outra
do que não dissesse


Jura secreta 11 engenho 484 para jiddu saldanha

arrancar do gesto
a palavra chave
da palavra a imagem xis
tudo por um risco
tudo por um triz

o trem bala (cospe esqueletos
no depósito da Central)
fuzil pode ser nosso brinquedo:
novo enredo para o próximo carnaval


Jura secreta 12

taubaté
tremembé
tamanduateí
tabatinga
taguatinga
tracunhenhem
tucuruví

toda palavra nua me tesa
como o t da tua tigresa
Matisse que nunca vi


Jura secreta 13

o tecido do amor já esgarçamos
em quantos outubros nos gozamos
agora que palavro itaocaras
e persigo outras ilhas
na carne crua do teu corpo
amanheço alfabeto grafitemas

quantas marés endoidecemos
e aramaico permaneço doido e lírico
em tudo mais que me negasse
flor de lótus flor de cactos flor de lírios
ou mesmo sexo sendo flor ou faca fosse
Hilda Hilst quando então se me amasse

ardendo em nós salgado mar e Olga risse
olhando em nós flechas de fogo se existisse
por onde quer que eu te cantasse ou amavisse



Jura secreta 14
eu te desejo flores lírios brancos
margaridas girassóis rosas vermelhas
e tudo quanto pétala
asas estrelas borboletas
alecrim bem-me-quer e alfazema

eu te desejo emblema
deste poema desvairado
com teu cheiro teu perfume
teu sabor teu suor tua doçura

e na mais santa loucura
declarar-te amor até os ossos

eu te desejo e posso :
palavrArte até a morte
enquanto a vida nos procura




lendo em teu livro/corpo
corpo/livro que me empresta
este poema é o que resta
das mil e umas noites de verão
quando pensei em Teerã
você sonhava comigo
e eu coloquei no teu umbigo
veneno doce da maçã

e o vermelho sangue da pitanga
foi o que ficou na minha tanga
quando beijou meu sexo de manhã

e o teu sonho me revelava
o consciente do teu in
ultrapassava o sono do teu eu
e mostrava o que quer de mim

assim como uma praia em fortaleza
marília londrina itajubá porto inseguro
dentro do sol nosso futuro
velas ao mar algas na areia
este teu corpo me ponteia
como punhal na lua cheia
apalo seco na canção

e eu solto velas ao vento
na travessia espaço e tempo
sendo real ou tanto faz
com a linguagem que invento
para aportar teu porto e cais